sábado, 1 de agosto de 2009

Mentira Ensolarada

- Os jardins sempre estão ensolarados nos dias de visita, você percebe? – ela disse, sem receber resposta alguma além do habitual silêncio dele.
E era sempre assim. Todas as primeiras terças-feiras de cada novo e último mês. É, quem sabe o próximo, não?
O apartamento era repleto de garrafas vazias. Almas vazias também, desconfiavam os vizinhos. Toda terça-feira à tarde, era sempre o mesmo inferno, a garota chegava com os olhos vermelhos, as pupilas dilatadas. A alma vazia. Ela quebrava qualquer coisa que ainda restasse naquele apartamento, ou talvez quebrasse em pedaços menores o que já havia sido vitimado no último ataque.
Quando Candy acordava, normalmente na madrugada da quinta-feira, o chão estava lavado de sangue, talvez de alguns pedaços de fígado ou pulmão, quem sabe?
Ela se sentava no chão e começava a limpar tudo. Ah, não adianta, doce Candy, o carpete está manchado para sempre, manchado de vermelho, tão morto quanto você ou ele.
- Bom dia, senhora Cadence. É uma bela terça ensolarada hoje, não?
- Como sempre, Chico, como sempre. Onde ele está?
Mais um dia de visita, quem sabe o último, não é?
-Ora, vamos. Fale comigo. Você me deve isso. Por todas as lembranças, por todos os dias vividos.
Silêncio.
- Os carpetes estão limpos há meses, eu juro. – a voz dela falhou por um momento - O bebê morreu numa manhã, não era ensolarada com essa, mas era uma manhã. Coitado daquele pequeno deus, não é mesmo? - os olhos estavam ficando vermelhos, de dor, de raiva, de lágrimas - Eu o perdi, não posso perder você também, será que você não entende?
Silêncio.
Ela se levantou, arrumou o vestido vermelho e olhou pra ele, enquanto ele mesmo mirava o nada.
- Que vida horrorosa nós tivemos, meu bem.
Ele falou sem por os olhos nela, mirando o vazio. Dentro dele, dentro dela, dentro de toda aquela mentira ensolarada.